Sobre P. J. Ribeiro; título a descobrir…
outubro 24, 2009
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Quem é P. J. Ribeiro? Ou que representa esse autor na Literatura brasileira contemporânea? Estas perguntas e a resposta que tenho para elas me trazem Santo Agostinho: “Tempo? Eu sei o que é o tempo, mas se perguntam, não sei mais!” (cito de memória). Assim também eu sei quem é o autor de quem trato aqui. E, como não tenho a pretensão de oferecer respostas certas, mas tenho convivido com a necessidade de apresentar certos comentários a respeito desta autoria altamente significativa na nossa produção literária atual, ouso um diálogo com a quase totalidade das suas publicações, iniciadas nos anos sessenta e desenfreadamente vindas à luz pública nos anos recentes deste novo século, totalizando já, se não erro muito nas contas, uns vinte livros.
Para dialogar com a escrita de P. J. Ribeiro me proponho o desafio de trazer, para a minha, um pouco da instantaneidade peculiar aos seus textos, ficando a intensidade – outra característica sua; coisas da boa Literatura – à espera dos interessados, nos seus livros.
Instantaneamente, então, chamo para o diálogo, aqui, uma primeira mostra do que pode a autoria representada pela assinatura P. J. Ribeiro:
O BEM E O MAL
Chamaram o Bem para uma partida de futebol.
Quando o Bem deu a saída na bola, o Mal com outra bola fez um gol.
O Bem disse que não valeu; o Mal disse que sim e ficaram naquilo até resolver chamar um juiz pra acabar com o impasse. Quando o juiz chegou disse que valeu sim, que aquele gol era perfeitamente válido.
Só aí o Bem começou a entender o lado mal das coisas. (Ribeiro, 2002, p. 16)
No tempo de um lance de jogo, a autoria põe em campo o maniqueísmo e suas reflexões derivadas, de acordo com a capacidade de diálogo de cada leitor.
Intensidade e instantaneidade literárias aí já estão, neste … poema (?) ou mini-conto (?), crônica, ou teatro. Por falar em gênero, nem um santo poderia dar conta de definir as várias formas de Literatura experimentadas pelo autor. Algum comentário de um ou outro literato consagrado sobre seus livros talvez ajude a esboçar aquele necessário e didático perfil:
Ao mesclar prosa & poesia, sacode o conforto das definições fáceis, afronta o limite dos rótulos. [...] Mergulhará num labirinto infernal quem se puser a catar miuçalhas com o fito de classificar o trabalho como deste ou daquele gênero.
Mesmo num texto mais longo, como Frutas e Legumes, ainda é possível observar a fusão de gêneros. Pode ser visto como um conto em forma de diálogo. Por outro lado, é inteiramente representável em um palco de teatro. (Alfaya, in: Ribeiro, 2001, p. 14)
Por se ter falado em Frutas e Legumes, ei-o:
Madame – Eu queria comprar meia dúzia de frutas & legumes pra levar pra casa. Mas, acho que não vai dar. Não encontro, ih…
Cara – Leve-me, senhorita, sou leve como uma pluma. Já fui chofer de táxi, camareiro, trabalhei no circo, numa indústria de enlatados e, no entanto, estou pobre feito Jó, sem ter pr’onde ir.
Madame – Nabos, quiabos, jiló, pessegada, bananada, que nada!, não encontro nada pra comprar e este homem moribundo ao meu lado pedindo alguma coisa, não estou realmente entendendo isso… [...] (Ribeiro, 2001, p. 43)
Dá pra perceber o posicionamento da autoria no intermédio do diálogo dos personagens, reproduzindo à sua literatura, em teatro, situações, como a passagem citada, recorrentes na vida contemporânea, em que a língua comum não é mesmo suficiente para o encontro pessoal.
É um texto de três páginas; daí ser chamado de um texto “mais longo”; e é mesmo uma boa mostra do potencial de teatro de grande parte da produção de P. J. Ribeiro, este artista que aguarda ainda a decantação de tudo que se produz na Literatura pós-moderna e pós-pós-moderna para tomar seu lugar entre nossos melhores escritores.
Da obra
Considerando a necessidade de apresentar a autoria apresentando a obra, convido para um passeio por ela; recomendando preparo para encarar sua belicosidade. Na contra capa do recente Um Terno Tirado do Fundo do Armário (2009), Carlos Alberto Castelo Branco, num texto chamado Cuidado: poetas na pista, usou palavras boas para reforçar o aviso:
Os poetas, todos eles, sempre me causaram um certo desconforto, atração e desejo de fugir, vontade de mergulhar nas palavras ou encilha-las em suas próprias lombadas, tangendo-as para a estante, em legítima defesa.
[...] Eles são cruéis. Não oferecem nada. Na verdade, vão cavucar as palavras na alma do leitor, fazendo buracos por onde penetram dúvidas e se esvaem as parcas certezas. Quando eles falam de coisas porcas, é de você que eles estão falando, e não dá pra se fingir de morto. [...] Até a morte, quando falam dela – e falam muito – é a sua que o poeta canta.
[...] Não adianta virar o rosto, amigo. Como disse outro verdugo, Francisco Marcelo Cabral, é por você que P. J. Ribeiro está falando. (Castelo Branco, In: Ribeiro, 2009, s.p)
A obra de P. J. Ribeiro, como a de Francisco Marcelo Cabral, tem a intrigante coincidência do nome Cataguases, cidadezinha metida a revelar, desde os Verdes, literatos tantos que dá pra desconfiar. E investigando descobre-se: Ele é carioca; mas certamente estava entrincheirado à sombra dum oiti cataguasense quando, em Abstrações de um Tigre, seu livro de estréia, começou a disparar: “É difícil crer na vida/ tola, absurda de um cadillac./ É preciso mais:/ uma lata de lixo resolve o problema.” (Ribeiro, 1976, p. 31).
Ainda bem que eu nunca quis ter um cadillac. Assim não me atinge a brilhante aproximação feita pelo poeta entre a “Lata de lixo” – título do poema, integralmente citado – e o carrão dos sonhos do consumismo introjetado aqui naqueles tempos de ditadura.
Mas estou sendo, talvez, injusto ao apresentar P. J. apenas como belicoso. No mesmo Abstrações de um Tigre a autoria também é, e proporciona, descontração; explorando a força das palavras – realçada nos movimentos de literatura visual de então – e apresentando para elas novos desenhos-signos; arte retomada em vários livros posteriores. As experimentações com a caligrafia e os desenhos recheou de visualidades sua obra, culminando em Muralhas Humanas (1981), composto de cartões avulsos, ou “arte-correio”, como aparece na capa, e em Visuais, também de 1981.
Voltando a Abstrações de um Tigre, outra faceta poética em experimento bem sucedido se infere nas séries de haicais: “[...] Se o que te faz/ não for capaz/ não faz/ “Se o que te mata/ é uma pata/ não mata/ “Se o que te prende/ não for crente/ não prende/ “Se o que te sabes/ não forem males/ não sabes.” (Ibidem, p. 22)
A instantaneidade pretendida se me obriga a deixar apenas sugerido o prazer estético latente nas páginas dos livros nos quais o autor se exercitou com estas características esboçadas, e já me pego folheando Passeio Bélico (2000), Vida Rebelde (2001), O Estrangulador de Estrelas (2002), e Interlocutando (2003), nos quais se estacam os sempre belicosos “poemas-minuto”, como os chama o próprio autor; além de outros textos, sempre tiros-curtos, desnorteadores do leitor antes mesmo de ele tentar uma qualquer classificação de gênero, como neste Situação:
Havia duas famílias em Drogary.
Uma pobre, outra rica.
Na rica, tinha poucas pessoas e muita comida.
Na pobre, muitas pessoas e pouca comida.
Pena que só depois de muito tempo os pobres descobriram isto.
Então, já sem forças, quiseram comer os ricos.
Mas não conseguiram. (Ribeiro, 2003, p. 65)
Nos textos destes livros, a respeito e a despeito da impossibilidade de definição de gênero, outras características da produção literária brasileira pós-moderna são exemplares para se a apresentar bem: a simultaneidade da narração com a narrativa, normalmente através dos gerúndios, a variação do estado de humor do eu-lírico, a escatologia, a pornografia, a coloquialidade explorada a ponto de incomodar por parecer ou ser descuido, a possibilidade de leitura em níveis superficial e profundo de reflexão do conteúdo no indispensável cotejamento do texto com seu contexto, e outras a ser admiradas e ressaltadas em leituras mais formalistas.
Aqui, parece faltar, para esboçar melhor autoria e obra nas publicações de P. J. Ribeiro na virada do século, uma apresentação do seu arsenal de poemas-minuto. A eles, então:
O PIMPOLHO E O BARÃO
– Onde está aquele pimpolho maravilhoso?
– Ta no repolho do seu cu, Barão! (Ribeiro, 2000, p. 46)
DEDO DE SAL
Queres um dedo de sal ou uma porção de açúcar?
Uma porção de açúcar?
Então toma um dedo de sal. (Idem, 2001, p. 58)
DUAS VIDAS
Artur pensava que podia
ter duas vidas.
Casou-se com Joana e
Joaquina.
Só depois é que sentiu
que só dava pra ter uma.
Largou Joana e Joaquina. (Idem, 2002, p. 17)
Surpreendo-me de novo ao citar esses textos e não saber bem o que falar deles.
…surpreendentes!
Continuando, em 2003 – não posso esquecer, deles… – P. J. Ribeiro, com explícita influência de seu irmão e também poeta Joaquim Branco, dá a público dois livrinhos de bolso: Besouros Falantes e Água Solitária; um tanto marginais, outro tanto ratificadores de uma condição de incômodo e pessimismo poético do eu-lírico em pequenos textos e retalhos de textos a ser também inseridos no mosaico de características desse esboço da autoria e da obra proposto aqui. Mini ou micro textos consoantes com a urgência da vida moderna e carregados de provocações filosóficas; fazem pensar no que fariam, caso estivessem vivos e escrevendo, vários autores cuja pena de P. J. Ribeiro faz lembrar, como Machado de Assis, pela ironia, e Nelson Rodrigues, pela transparência do desespero do eu-lírico e das personagens.
A partir de Interlocutando (2003) começam a prevalecer nas publicações as narrativas de ficção, também em tamanhos mini e micro, em sintonia com a atual tendência de encurtamento do texto literário, nesses tempos chamados pós-pós-modernos.
E já tendo abusado das delongas, pauso aqui o passeio sobre a obra de P. J. Ribeiro para propor, à parte, um instantâneo da sua publicação mais recente.
Ternos e outras tiras das do fundo do armário
Que armário é esse, de onde não para de sair Literatura?: Contos sob Suspeita e Drogaria, do ano passado (2008), e Um Terno Tirado do Fundo do Armário, Galos e Solidão e Envidraçados deste ano. Excetuando o segundo – já escreverei sobre ele –, são contos rápidos de um realismo que me fazem imaginar um duelo entre as autorias de P. J. Ribeiro e Rubem Fonseca. Quando este disparasse mortalmente contra seus personagens, P. J. Ribeiro já teria atingido o estômago do leitor. E depois de absorver o impacto desses tiro-textos o leitor pode acabar morrendo é de rir:
TIROS A ESMO
Com seus companheiros de combate correndo pra todos os lados, e aqueles tiros de canhão disparados a torto e a direito, John se sentiu perdido, amedrontado. Portanto, resolveu fugir em direção ao mar, o mais rápido possível.
Quando viu, tava dentro de um pequeno bote, partindo.
Porém, mal a embarcação se afastou da costa, reconheceu no seu companheiro de viagem, um feroz inimigo.
Mas, não se fez de rogado: improvisou-se mulher; virou o quepe de lado, piscou os olhos com força, disse baixinho pro outro:
– Seja o que Deus quiser! (Ribeiro, 2009, p. 124)
Dá vontade de fazer uma análise literária, conjeturar interpretações, etc, não só neste mas em um monte de outros mini-contos de P. J. Ribeiro, mas como pretendo seguir apresentando este autor com brevidade, sigo – sabendo que sua obra não demorará a ter a merecida fortuna crítica quando o mini-conto deixar de ser uma novidade. Aí, quem tiver aquele estômago jovial (nietzscheano) para processar rápido o útil e descartar também prontamente o inútil, perceberá o quanto a literatura de P. J. Ribeiro pode contribuir para um verdadeiro encontro entre livro e vida, como também – e com razão – reclamava o mesmo Nietzsche, que não raro se me ulula no intimismo de P. J. Ribeiro.
Para terminar esta apresentação, chego à Drogaria: “Não tenho a menor dúvida de que ‘Drogaria’ é uma obra que se inscreverá na contemporaneidade de forma marcante, fazendo com que o nome de P. J. Ribeiro seja alçado à condição de Mestre da moderna poesia brasileira.” (Costa, in P. J. Ribeiro, 2009, s. p.).
Há muito a comentar… mas vou só pegar outra carona:
“O leitor já está assim avisado do que tem pela frente: poemas que vão solicitar a sua leitura atenta e co-autoral, num jogo que ora comove ora diverte, mas principalmente um jogo, mesmo quando invadido pelo mau humor de alguma filosofia, mesmo quando tocado das lamentações disfarçadas em sarcasmo” (Cabral, in P. J. Ribeiro, 2008, p. 10).
À P. J. Ribeiro – aos outros talvez não seja preciso dizer mais nada – me obrigo a relatar que estive, um dia desses, com aquela “lourinha” do Terno. Eu estava com quatro livros seus; ela olhou, olhou… pelo instigante do colorido deles, ou porque talvez sentisse calor; e depois do riso enigmático, disse que não gostava de ler: ao que ofereci e ela aceitou examinar o seu Drogaria; depois de uns dois ou três minutos-poemas quis tomá-lo de volta e tive que fazer força, porque a lourinha já estava ficando dependente.
Sem mais apologias, um pouco de Drogaria:
VIDA A DOIS
Ninguém sai imune
de uma vida
a dois
POEMAS E FARÓIS
POR FAVOR
Abaixe os faróis
E acenda as luzes
(internas)
do seu poema.
CAMBALHOTA
Por mim, tudo bem:
nem vitória
nem derrota.
Cambalhota.
Uma (in)conclusão
Como os galos de hoje cantam a qualquer momento, e a solidão – provocação poética nítida em P. J. Ribeiro – vai continuar a ser uma grande miséria e uma grande fortuna de todos, é de se esperar mais publicações depois do seu último Galos e Solidão.
Por agora, me obrigo a comentar, de todos os livros abordados, o seu mais relevante aspecto: o de obra de cultura; ou seja, o seu valor – para além da Literatura – de expressão documentadora, porque urge não aceitar mais a imposição de qualquer definição de belo destituída de responsabilidade social, sob disfarce de arte. A Literatura desde sempre foi perversamente inundada pelas obras que consagravam um belo uno, um modelo de ser humano pretensamente superior que se aproveitou da pólvora e da palavra para colonizar todas as alteridades que pôde.
A Literatura de P. J. Ribeiro não explicita um projeto ideológico delineado, não se propõe a esclarecer o que já tem sido dito por filósofos, sociólogos e outros grandes pensadores preocupados com os rumos que tem tomado a humanidade; ela traz o grito que se espera do artista da palavra, um grito inferido e sentido e processado a partir da potência comunicativa da poesia.
Esse grito, ás vezes belo, outras feio, singelo ou estúpido, humor fino ou esdrúxulo, é a única sintonia possível entre arte literária e vida contemporânea, independendo da precondição de recepção do seu impacto em cada leitor. Assim, quando leio “Vou agora trabalhar como se nada tivesse acontecido. Mas nada aconteceu, não é mesmo?”1 não posso deixar de repensar o marxismo e dialogar com um Boaventura de Souza Santos, cuja voz ouço em “Uma desordem/ vale mais/ que dez ordens”2; quando leio “Só existe um deus bom: é o deus-nos-acuda!”3 não posso deixar de repensar o cristianismo e dialogar com Nietszche, cuja voz também ouço em “traga-me a esperança qu’eu te darei/ ouro, muito ouro./ Traga-me ouro qu’eu não te darei/ esperança nenhuma.”4; quando leio “Há sempre em cada um de nós/ um pouco de filosofia/barata.”5 não posso deixar de ouvir Kafka e dialogar com Lévinnas, com quem a obra de P. J. Ribeiro dialoga por sua essência de alteridade na caracterização do eu-lírico do próprio poeta e dos personagens.
Nessas ideologias e mesmo noutras, às vezes até contraditórias nas provocações, o leitor tem mostras da alta voltagem expressiva política do artista da palavra. Munições fartas para instigar reflexão, resistência, rebeldia, rebelião e outras posturas críticas latentes no grito desesperado, sobretudo humorado, bem ou mal, pois imbricado no grande teatro da realidade; essa mesma que abafa a voz de poetas como P. J. Ribeiro para que uns poucos não percam seus camarotes enquanto os outros sustentam – até quando? – a tragicomédia nossa de cada dia.
Não é de estranhar que as grandes editoras continuem enchendo as prateleiras das livrarias e os espaços de publicidade com novas obras, certinhas e quase sempre medíocres, enquanto um autor que tem realmente algo a acrescentar à nossa Literatura continua tendo que pagar para editar seus livros.
Para quem quiser e puder rir, e para quem quiser tirar suas próprias conclusões, segue aberto o questionamento sobre quem é e o que representa na Literatura contemporânea brasileira esse estrangulador de estrelas, esse água solitária, besouro falante, esse tigre envidraçado, bélico, rebelde e suspeito, P. J. Ribeiro.
Por Luciano de Andrade


aquiles branco on dom, 25th out 2009 1:27 pm
Todo lado intenso que um escritor tem de ter, sem alardes, ele tem. Observa o mundo com uma agudeza e fervor na possibilidade de encontrar uma saída melhor para o caminho trilhado pela vida. E explode em cada novo movimento do espaço ocupado com brilho e determinação. O ato de criar borbulha. É uma máquina de talento e parece não ter fim; e assim caminha com seus passos pela humanidade. E continua caminhando, caminhando para descobrir a melhor resposta que está dentro dele mesmo. Gostamos de saber sempre disto.